26/05/2012

Um rápido balanço

Eis que, em junho, completarei quatro anos de meu ingresso na área da saúde, sendo mais de dois deles, atuando profissionalmente na enfermagem, especialmente, em saúde mental. Passou mais ligeiro do que imaginei e tomei atitudes mais inesperadas do que planejei, como por exemplo, estudar uma faculdade de enfermagem, iniciada neste ano. É interessante voltar à faculdade "depois de grande". Na verdade, eu diria que é muito melhor. Hoje sei que sou mais enfermeira do que jornalista. Mas uma profissão não exclui a outra: continuo gostando de escrever, sentindo necessidade de expressar-me por meio das letras e acho que isso nunca sairá de mim. Mas o balanço que quero fazer é sobre o que vi e ouvi na enfermagem até agora. 

Nos locais onde trabalhei, encontrei excelentes profissionais da saúde, mas também, uma enfermagem cansada. Infelizmente, jovens ou veteranos da enfermagem estão fatigados. A razão que leva auxiliares, técnicos ou enfermeiros a concluírem seus cursos são as mais diversas e a maioria não está, de fato, muito preocupada em cuidar do outro. Aliás, esta divisão hierárquica entre os profissionais de enfermagem, ocorrida nos anos 60, mais atrapalhou do que ajudou. Compartilho da mesma opinião de minha professora da disciplina de História do Cuidar: somos todos enfermeiros e pronto.

Pessoas estudam para serem auxiliares e técnicos em enfermagem porque o curso dura um ano (passa rápido), porque tem uma escola a cada três quarteirões, porque se trabalha 06 horas por dia para ganhar uma média líquida inicial de $1.000 (dependendo do local), porque o marido mandou, porque a mãe é enfermeira, porque a vizinhança toda trabalha em hospital, porque o profissional usa roupa branca (e isso dá um certo status), porque basta ter o ensino médio (e isso pode ser resolvido rapidamente com um supletivo). E existem muitos veteranos, com idade avançada, que permaneceram somente com o curso de auxiliar e não se interessaram em dar continuidade aos estudos ou buscar uma reciclagem. Destes, também é possível contar nos dedos os que realmente atuam por vocação. E até mesmo os vocacionados estão exaustos. Raras foram as vezes em que ouvi, "eu gosto de cuidar do outro". Outras pessoas, estudam a faculdade de enfermagem motivadas por uma razão bastante inóspita: por não quererem mais "ficar lavando bunda de paciente". Sim, eu realmente ouvi isso. E não foi só uma vez.

Do pouco que experimentei, com meu olhar novato, porém, entusiasmado, ficou nítido que a enfermagem brasileira está passando por uma nebulosidade que já dura bastante tempo e precisaria (urgente) passar por uma reforma. Há também uma contradição entre o que se fala e o que se faz. Na teoria, tudo é muito correto. Na prática, o que se faz é o jogo do sistema no qual é preciso "entrar no esquema". Esquema este que fiz questão de não participar e, por isso, perdi meu emprego. 

Algumas pessoas estão ingressando na enfermagem pelas motivações erradas. Não dá para entrar nesta  área sem gostar de gente. Mas é isto que tenho visto e será com isto que vou ter de conviver, até encontrar o meu real lugar no mercado de trabalho. Você pode até não gostar de determinados setores, como geriatria, UTI, psiquiatria, pronto-socorro. Pode até não gostar de fazer alguns procedimentos, como punção, curativo, banho, etc. Mesmo assim, em todas as especialidades e em qualquer atendimento, um profissional atuante em enfermagem, vai ter de enfrentar e assumir o paciente/cliente: seja conversando ou só fazendo companhia, seja só o ouvindo ou dando alguma orientação, seja dando banho nele ou não, esteja você para se aposentar ou não, tenha chegado agora no mercado de trabalho ou não.

Algumas falas de alguns profissionais da enfermagem evidenciam o descompromisso: "este não é meu andar", "este não é meu paciente", "isto não é comigo", "quem mandou você vir falar comigo?", "não sou eu quem vê isso", "já estou de saída". São respostas resvaladiças em que o profissional inconsequente não quer se responsabilizar por nada. Esta atitude hostil é contagiosa na equipe e atinge não só pacientes/clientes, mas também os novatos entusiasmados, como eu. 

No meu último emprego sofri bullying. Sim, é risível. Mas é a pura verdade. Verdade também que eu, com  minha franca inexperiência e minha ingênua dedicação, acabei trocando os pés pelas mãos e não soube "ser política" nem ter jogo de cintura. Mas essa minha "ingenuidade crônica" (expressão que uma amiga usou sobre mim, certa vez) foi - definitivamente - embora, depois do que vivenciei. Existem características que permeiam meu perfil profissional, independentemente da área em que atuo: possuo excelente nível de diálogo, inteligência emocional desenvolvida, meu desempenho é sempre reconhecido pela competência, dedicação e organização, tenho uma personalidade precavida e prevencionista. Coleto informações, pesquiso o antes e o agora, me interesso, busco um sentido nas coisas que facilite a compreensão do momento presente e me dê os passos para prevenir futuros sofrimentos. Contribuo para melhorias, opino sobre o que não deu certo e ofereço novas ideias. Sobretudo, se for para fazer algo mal feito, nem começo. E mais, no caso da enfermagem principalmente, o bem do paciente/cliente vem antes dos meus interesses. Sou daquelas que para o que está fazendo para dar atenção e não fico satisfeita enquanto a pessoa não ir embora dizendo "obrigado(a)".

Como acolher uma profissional com este nível de comprometimento, em um serviço contaminado por velhos hábitos adquiridos, atrelado ao atendimento de balcão, partilhado por uma equipe mais interessada em dar gargalhadas na copa? Não dá. "Esta moça vai dar problema aqui", "ela vai atrapalhar", "o pior é que os  pacientes estão gostando dela", "quem ela pensa que é?". Sou a ameaça. Sou o perigo que atingirá tudo que  ali está instalado e "indo muito bem" do jeito que está. Trabalhar direito, neste caso, significa fazer a incompetência do outro aparecer. Afora isso, os colegas mais preparados e mais afetuosos (mas não menos ardilosos!), tentam me consolar dizendo ser tudo fruto de inveja. E há aqueles que também me admiram verdadeiramente mas ficam apreensivos com o envolvimento ao me darem algum apoio. A vida corporativa não é fácil, mas julguei que, na enfermagem, todos tinham uma meta superior em comum. Mas constatei que não é exatamente assim que funciona e que pouco poderei fazer para transformar esta gigantesca realidade.

Desde quando comecei a estudar o curso de auxiliar de enfermagem, ouço falar na "desunião da classe". Eu, que estava iniciando na área, não queria acreditar nisso de maneira nenhuma. "Desunida por quê?", eu pensava. Não estamos todos com um mesmo objetivo final e que é a maior virtude de nosso ofício: cuidar bem e direito do cliente/paciente?. Não estamos todos estudando os mesmos fundamentos, as mesmas bases, os mesmos conceitos, os mesmos procedimentos para fazermos tudo todos juntos na pessoa em tratamento? De onde vem esta desunião? Por quê aparece esta desunião? E acho que encontrei duas respostas: vaidade e medo. 

Mas agora, com licença que eu vou à luta. Atrás de uma outra realidade, mais tangível: batalhar um novo emprego.

03/02/2012

Surto psicótico - Caso 02

Fábio (nome trocado), paciente do CAPS Adulto (de transtornos mentais), diagnosticado com esquizofrenia, estava fazendo uso de cola de sapateiro, de uns tempos para cá. Sua referência em saúde mental o encaminhou para o tratamento de dependência química no CAPS Álcool e Drogas. Chegou à unidade sozinho. Enquanto ele se apresentava à recepção, eu usava o computador, no mesmo local. E observei. Alto, moreno claro, corpo atlético, cabelos castanhos bem curtos, olhos verdes, um belo sorriso, 33 anos. Muito asseado. Nas mãos, ele segurava o livro "O Guardião da Meia-Noite". "Quero doar este livro para vocês", disse. E foi orientado a colocar a doação na estante da pequena biblioteca. 

Em alguns instantes, ele seria atendido pela psicóloga, que pediu que a esperasse na sala de atendimento. O  paciente aguardava calmamente. De repente, ouvimos um estrondo. A psicóloga desconfia que o som veio de sua sala e corre até lá. Acompanhei. O paciente Fábio está de pé, em frente à mesa, com os olhos vidrados e uma mancha vermelha na testa. A psicóloga pergunta, "o que foi isso, rapaz?". Ele responde, com um sorriso medonho, "estou verificando a qualidade". Ele havia dado uma cabeçada na mesa. Tensão. A psicóloga o adverte e pede que ele não faça mais isso. Diante das circunstâncias, ela solicita atendimento emergencial ao médico psiquiatra, que atende imediatamente. Fábio entrou na sala do médico e fechou a porta. Neste momento, pela primeira vez na minha rotina de trabalho, tive uma intuição realmente negativa. Medo.

Passados dois minutos, a porta da sala do psiquiatra se abre e o próprio, em voz alta, pede ajuda, "alguém venha aqui, olhe só, ele se defecou todo!". Nojo. Não sobrou um. Fiquei só eu ali, de pé, tentando entender o incompreensível. O psiquiatra, atordoado e nervoso, ao me ver, disse, "Cinira, leve ele ao banheiro. Olhe o estado que ficou isso aqui! Que presente de aposentadoria!". Desolação. Sim, era o último dia de trabalho do doutor, que estava se aposentando naquela data. E eu ainda tive a presença de espírito de tentar consolá-lo dizendo, "fica tranquilo, doutor, isso é sinal de boa sorte". Durante o atendimento psiquiátrico, o paciente defecou nas próprias calças. Sentindo-se incomodado com o volume que ficou ali depositado, resolveu eliminar aquela sensação de desconforto: introduziu sua mão dentro da cueca, retirou suas fezes e as jogou no chão e na parede da sala onde estava. Em 15 minutos, vivenciamos uma montanha russa de emoções.

Dirijo-me ao paciente, que agora está com o semblante desatinado e com as mãos sujas de fezes. Pensei comigo, "não diga nada, não pergunte nada, só o encaminhe e o oriente". Chamei, "Fabio, vem aqui comigo ao banheiro". "Não consegui controlar...", ele justifica. Aos poucos, as colegas foram reaparecendo: a auxiliar de limpeza, as psicólogas, a assistente social, recepcionista... Como na unidade não havia medicação de urgência, fui incumbida de levá-lo à Assistência Médica Ambulatorial (AMA), no prédio vizinho, onde ele seria medicado e encaminhado para uma avaliação em um pronto-socorro psiquiátrico. Mas minha intuição estava realmente muito negativa e senti que, a qualquer momento, o pior ainda viria.

Eu e o paciente aguardávamos o atendimento.  O AMA estava cheio de gente. Eu pensava, "ele pode fazer qualquer coisa, a qualquer momento". Sempre ao lado dele e conversando bastante, eu falava como se tudo fosse uma grande novidade, porque agora ele se comportava como uma criança travessa. Andando para lá e cá, perguntava coisas como, "isso aqui é um hospital?", "posso gritar?". Até chegar a hora dele me dizer, "preciso fazer cocô".

- Ali. O banheiro masculino é logo ali. Vamos lá.
- Eu não sei.
- Não sabe o quê?
- Eu não tô aguentando.
- Vamos lá, eu te levo.

Ele me acompanha. Estou, como se diz, "pisando em ovos". Ao chegar na porta de entrada do banheiro:

- Aqui, pronto. Vai lá.
- Não sei fazer!
- Vou ficar aqui de olho, tô aqui na porta. Chegando ali você vai saber. Usa o banheiro aí dentro. E se precisar de algo me chama.
- Tá.

Ele entrou no banheiro e fechou a porta. Fiquei apreensiva. Era uma situação na qual o controle não dependia em nada de nenhuma atitude minha. As condições não eram favoráveis: o clima não era de docilidade, tampouco de sujeição. Pelo contrário, parecia que ele estava "me testando" o tempo todo.  Abri a porta de entrada do banheiro e perguntei, "tudo bem por aí?". "Tudo", ele responde lá de dentro. Observo então, sua saída. Ele abre a porta subitamente, se vira para mim e diz,  "já acabei!". Mal posso acreditar no vejo. Ele ali, de pé, parado, com aquele sorriso sinistro, aguardando por alguma manifestação minha. Minha reação foi de uma frieza calculada em segundos, fiz de conta que não estava vendo nada demais.

Fábio, 33 anos, alto, moreno claro, corpo atlético, cabelos castanhos bem curtos, olhos verdes, belo sorriso e muito asseado, se transformou: seu rosto estava completamente coberto de fezes. É. Cocô. Sim, ele passou merda no rosto. Bosta mesmo, em toda a face. Olhos e boca escaparam. Minha vontade sincera era perguntar, gritando, "mas que merda é essa que você fez?!". Mas, obviamente, não. Reagi com uma naturalidade tão dissimulada, que talvez eu até tenha o decepcionado. Olhei bem em seus olhos e mudei radicalmente o foco.

- Agora lava as mãos, né, Fábio?!

Fui orientando para que ele se higienizasse corretamente. Argumentei que ele não poderia passar na consulta com o médico, "com o rosto suado daquele jeito". Nesta gradação evolutiva de episódios insólitos, o aspecto de Fábio estava muito distante do título "asseado".

O médico do AMA chamou e fomos até sua sala. Passo o caso ao doutor, vou explicando tudo e, de repente, Fábio dá uma cabeçada na mesa do médico, abrindo uma fissura bem no meio da testa, que começa a sangrar em cima do inchaço da pancada anterior. O médico se assustou, levantou da cadeira e, se afastando, pediu a mim, "leve-o até a medicação!". O paciente estava, aos poucos e literalmente, virando  outra pessoa, em todos os aspectos.

Seguimos para a sala de medicação. Lá, Fábio começa a mexer com as moças da enfermagem, falando coisas como "quanta mulher!". Mas fiquei tranquila porque pensei, "ele está gostando de ficar aqui, acho que vai colaborar". De repente, Fábio decide sair correndo pelo  AMA. Assustando os outros pacientes e ignorando meu chamado, ele se esconde na sala de expurgo. Vou atrás dele e, a cada funcionário que encontro pelo caminho, digo "preciso de ajuda aqui". E eles foram passando a informação pela unidade.

Ao me aproximar, vejo o paciente em posição fetal, dentro de um armário. A equipe já estava de prontidão: enfermeiros, auxiliares, gerente, equipe da ambulância e seguranças. Aproveitei para ir até ao CAPS relatar os últimos acontecimentos e confirmar minha conduta de acompanhá-lo até o hospital psiquiátrico. Ao voltar, os profissionais ainda tentavam convencer Fábio a sair dali e eu o ouvia dizendo, "não quero dormir!", "não quero ficar internado!". A enfermeira o convence a sair dali, dizendo que ninguém iria interná-lo nem dar remédio para dormir. Ele se levanta e caminha até a maca. Ao se deitar, a equipe da ambulância e seguranças o imobilizam. Fábio, enfurecido, vocifera, "é injeção! é injeção!. E é aplicada uma injeção de Haloperidol e Prometazina, intramuscular, na coxa.

O paciente estrebucha na maca e profere os piores palavrões. Alterna seu comportamento entre quietude, espasmos e gritos repentinos. Parece que de seus olhos saem faíscas. Sua testa, ainda inchada, tem sangue coagulado. O cabelo, em desalinho, está ensebado. Seu corpo, que está ficando sem tônus, exala odores fétidos. Fala em Lúcifer, em guardião do mal e também dá gargalhadas assustadoras. Em uma dessas gargalhadas, algo cai de sua boca. É o pivô de seu dente frontal. Agora ele está banguela. Finalmente, Fábio havia se metamorfoseado. E então, após 20 minutos, dormiu como um anjo.

*dedico este relato ao enfermeiro Roberto Avelino de Araújo.

27/01/2012

2000 visitantes!

Neste instante, dois mil visitantes. O Visita da Saúde existe desde abril de 2009 e só fiz meu primeiro post após três meses de criação do blog. Foi suado garimpar estas duas mil joias nestes quase três anos de existência. Mas prefiro, como se pode ver, assim: devagar e sempre. Obrigada pelo interesse, caros(as) leitores(as)!

24/01/2012

Surto psicótico - Caso 01

Estava na sala de enfermagem, realizando um atendimento, quando escuto um vozeio feminino do lado de fora. O sinal de alerta acendeu. Minutos depois, batem na porta da sala. É a recepcionista, que me diz, "Cinira, as profissionais todas estão ocupadas, não sei o que fazer! Estou com um problema aqui e não sei resolver! A pessoa está muito alterada! Você pode vir aqui?". Pedi um instante de licença ao paciente que eu estava conversando e saí com ela para ver o que estava acontecendo. Avisto na recepção duas moças: uma, em pranto, ao lado de outra, mais sisuda. "Por que você está chorando?", pergunto. Neste instante, a moça séria,  vestida de saia longa e camisa branca fechada até o pescoço, alta estatura e cabelos presos em um longo rabo de cavalo, me pega pelo braço, diz "vem aqui" e me puxa até a sala de onde eu havia acabado de sair. Sem resistir, sigo com ela. Ao abrir a porta da sala de enfermagem, ela se constrange e pede desculpas. Não sabia que havia gente ali. Em segundos pensei, "como fui tola... fui falar com a moça que estava chorando, achando que era ela quem estava 'causando'!". Menos uma percepção limitada na minha vida profissional em saúde mental. Olho nos olhos da moça séria e digo, "vou me despedir deste paciente e te chamo em seguida". Pergunto seu nome. Carolina (nome trocado) está inquieta. Ao meu gesto, indicando para que entrasse, correu, entrou e fechou a porta. Ficamos somente eu e ela, a portas fechadas. Carolina está com um terço e uma garrafa de água mineral nas mãos. Anda de um lado para o outro e a respiração está ofegante. 

- Senta aqui para eu poder conversar com você, por favor. 
- Eu vou benzer a sala primeiro.
- Tudo bem.

Ela abre a garrafa, joga água nas mãos e vai espalhando a "água benta" na sala toda, proferindo preces. Enquanto a observava, eu conduzia minha mente, "crie empatia, seja dócil, ganhe a confiança, entenda o raciocínio, tenha controle da situação sem pressão e, o principal, não subestime a inteligência dela". Ao terminar a "bênção", ela sentou-se, tensa. Respirava fundo e abanava-se, esboçando um sorriso que nunca se concluía. 

- Que lindo seu terço. Você está sempre com ele?
- Sim. Sou postulante das irmãs beneditinas. 
- São Benedito! 
- Você acredita em Deus?
- Sim! 
- Você é católica?
- Pratico pouco o catolicismo atualmente, mas minha formação é católica, estudei em colégio de padres, estudei enfermagem com freiras, faço minhas orações...
- Entendo. Estou vendo seu brinco.

Eu usava um brinco de argolas pequeninas, douradas, com um minúsculo pingente de crucifixo dourado, pendurado do lado esquerdo. A partir daí, entre risadas nervosas e choros retraídos da Carolina, o atendimento foi sendo realizado em tom de bate-papo. Meu objetivo era estabilizar o ânimo da paciente, oferecer um ambiente seguro e confiável e tentar obter elementos para conhecer e compreender o conjunto da situação. A moça que estava chorando é irmã dela. Logo depois, chegou a mãe, com os remédios de Carolina. A paciente relatava que estava tudo bem, mas que o único problema era quando a outra pessoa não entendia o que ela dizia e aí ela perdia a linha de pensamento. Pergunto se posso chamar sua irmã, pois eu queria compreender por que ela estava chorando. Carolina "me autoriza". Conversando com a irmã, soube que a paciente havia puxado o freio de mão do carro, no meio da Radial Leste, e que foi um sufoco, porque quase sofreram um acidente vindo até o CAPS.

Carolina, paciente de 23 anos, nunca usou drogas. A jovem estava apresentando um quadro de surto psicótico, podendo evoluir para uma crise esquizofrênica. Com a paciente, a irmã e a mãe tranquilizadas, explico que estava na hora de chamar a psicóloga porque elas precisariam conversar com uma profissional técnica. A psicóloga deu início ao seu atendimento, mantendo o clima suave que foi instalado no ambiente. Carolina continuava chorando e rindo ao mesmo tempo, mas com menos intensidade. Aos poucos, a psicóloga foi argumentando e convencendo a paciente sobre a necessidade dela tomar a medicação que recusava.

Após ser medicada com, pelo menos, um dos seus remédios, Carolina foi encaminhada ao serviço de referência em transtornos mentais. Na hora de se despedir, me abraçou forte, agradeceu e me chamou de "Sininho" (relacionando meu nome com a fada). Finalizada a longa intercorrência, fui ao banheiro. E chorei. Chorei por ver o sofrimento do portador de uma doença psíquica, por ver o risco em que são expostos os familiares e por Deus se fazer presente nas horas mais inesperadas. Este fato ocorreu no dia seguinte ao momento no qual eu questionava minha atuação na saúde mental.

Após um mês, chegaram dois cartões no trabalho, um endereçado para a psicóloga e outro para mim. A remetente era Carolina. Em um cartão da Nossa Senhora do Sion, ela agradecia o acolhimento e contava que estava melhorando. Atualmente, após dois anos e quatro meses na área, não incomodo Deus, nem santo nenhum, nem santa alguma com determinadas questões. Fadas tampouco.

22/01/2012

Antes de entrar em 2012 ...

... quero relatar duas intercorrências que aconteceram no meu trabalho, no final do ano passado. Acredito que elas devam constar aqui por duas razões: para aproximar o(a) leitor(a) da realidade de um indivíduo em surto psicótico/esquizofrenia e para contar como me portei diante de situações que nunca havia experimentado antes.

03/01/2012

Para comentar neste blog

Caro(a) leitor(a), 

se você tentou comentar neste blog e não conseguiu, talvez você precise utilizar o navegador Google Chrome. Baixe e instale aqui: https://www.google.com/chrome?hl=pt-br

Algumas pessoas estão tendo problemas para postar seus comentários quando escrevem pelo Mozilla, Internet Explorer etc.

Espero ter ajudado a solucionar um contratempo que está complicando a vida de alguns bloggers!

:-)

07/10/2011

Ausente e distante. Mas não desistente.

Aos leitores,

venho até o blog justificar minha ausência. Sim, tenho histórias para relatar. Não, não perdi a vontade de escrever. Sim, vou voltar a publicar. Só não estou conseguindo organizar.

Outros comprometimentos estão me impossibilitando de parar. O que posso dizer, neste momento, é que comemorei dois anos na área de saúde! E saúde mental. Tudo indica, sobrevivi. E, o melhor, fazendo bem feito. Tenho planos, projetos e novidades.

Voltarei para postar na hora que tiver de fazê-lo.

Obrigada desde sempre.

25/12/2010

Hipertensão x Alcoolismo

Na saúde pública, uma das questões mais preocupantes, são as doenças cardiovasculares que representam a primeira causa de morte no Brasil. Destes problemas do coração, muitos são consequências da hipertensão arterial. De acordo com o Ministério da Saúde, 35% da população brasileira, acima de 40 anos, sofre de hipertensão.

Conhecida como "pressão alta", a doença é tida como traiçoeira porque não apresenta, necessariamente, sintomas. Dependentes de álcool são alvo fácil, já que o excesso de etanol prejudica o bom funcionamento dos órgãos, e o consumo de sal durante as "bebedeiras" (petiscos, churrascos e antepastos), piora o quadro clínico.

Atendo pacientes alcoolistas que sofrem de hipertensão arterial. Um deles, é o Sr. Norberto (nome trocado). Sua pressão é sempre verificada e houve um curto período no qual ele ficou abstinente, mas a aferição mostrava 16x10. Tudo indicava que, apesar de não estar fazendo uso do álcool, ele não estava se medicando para o controle da pressão. Questionado, ele confessou que não estava tomando seu remédio. Após orientação e consentimento, foram agendadas as consultas de rotina para as próximas semanas.

O paciente faltou no psiquiatra. Faltou no grupo terapêutico. Faltou na enfermagem. Faltou no clínico. Faltou na oficina de atividades... Eis que, um dia, ele aparece na unidade, alcoolizado e bastante animado:

- Ô minha princesa!
- Ai, Sr. Norberto...
- Você não é uma princesa?
- Por favor, Sr. Norberto!

E saí "de fininho" para que a recepção o atendesse. Quando retorno, minha colega da recepção explica a situação, que é uma constante em meu trabalho: o paciente tem recaída, perde as consultas e volta querendo retomar o tratamento. Mas, para isso, ele precisa passar primeiro... pela enfermagem. Prontuário do paciente na mão e lá vou eu.

- Sr. Norberto!
- Oh, quem me chama? É minha princesa?
- Para com isso! Senta aqui pra mim, por favor.
- Vou contar a história da minha vida para você agora.
- Não, Sr. Norberto. Espera um pouco, deixa eu falar.
- Deixo desde que me deixe. Hahaha!
- O senhor teve recaída, deixa eu ver... pela terceira vez, Sr. Norberto. Esta última foi quando?
- Uma semana. Fazer o quê? A vida nos leva para condições estranhíssimas... que estão longe do nosso controle.
- Falando em controle, o senhor não deve fazer uso de bebida alcoólica. O senhor é hipertenso, toma remédios, está em tratamento para dependência...
- Não estou tomando remédio.
- E eu não sei!? Se o senhor estivesse tomando todas as suas medicações direitinho, não teria tantas recaídas. O senhor toma o remédio como bem quer, quando quer, não pode... Precisa dar uma chance pro tratamento, Sr. Norberto.
- Tá bom.
- Senta naquela cadeira pra eu aferir sua pressão.
- Hummmm... Aferirrrrrrr!
- Não tem graça.
- Seu perfume é como um campo de flores!
- Fica quietinho agora, senão, não ouço nada.
- Pssst!
- Mas é muito sortudo... Deu 12x8.
- Deu 12x8 porque você é maravilhosa!
- O que o senhor fez?
- Vim te ver!
- Para com isso. É muito sério, Sr. Norberto. O que o senhor fez?
- Eu tomo o remédio da pressão.
- Está tomando desde quando?
- Pra poder beber, há uma semana!

E, assim, muitos pacientes alcoolistas que estão em tratamento - e usuários de outras drogas também - vão administrando a dependência química e o uso das medicações: contando pequenas mentiras e omitindo informações cruciais, na tentativa de engabelar o profissional de saúde.

Na mentalidade do Sr. Norberto, tomando o hipotensivo - a medicação que baixa a pressão - ele pode, então, beber à vontade. Uma lógica imaginativa que ele criou para enganar a si próprio. Como se sua saúde fosse um joguete, Sr. Norberto brinca com suas artérias como brinca comigo.


Notas relevantes (mercado das drogas)

Preço base das drogas na capital de SP:
  • Cocaína - 1 pino (quatro carreiras) - $ 10
  • Crack - 1 pedra (duas cachimbadas) - $ 5
  • Maconha - 1 baranga (três cigarros) - $ 5

23/04/2010

Realmente cômico

Era o primeiro atendimento de enfermagem ao Sr. Israel (nome trocado), um senhor de 65 anos, magro, estatura baixa, nariz adunco, barba por fazer, semicalvo e desaparelhado de todos os dentes. O corpo, inquieto, exalava um constante e marcante odor senil. Ex-alcoolista, queria agora se livrar da dependência da maconha. Só consegue dormir se usar a erva.

No primeiro momento do atendimento, formalidades. É perguntado onde mora, com quem e o que faz, por exemplo. Sr. Israel valoriza as respostas, floreando-as, "moro há 65 anos aqui! todo mundo gosta de mim!". Depois, é perguntado sobre os vícios, tratamentos, internações, "nunca entrei em um hospital!". Certo, certo.

Ele é também tabagista, apresenta tosse produtiva, problemas precoces na audição, na visão, a memória falha várias vezes e não faz exames laboratoriais há tempos. Só após muita conversa é que se revelou um pouco, além do evidente desleixo pessoal, digno de nota. A enfermeira me incumbe de abordar esta questão e tento encontrar as motivações dele para não se cuidar um pouco mais:

- Sr. Israel, e banho?
- Que é que tem?
- O sr. toma?
- Tomo.
- Quando foi a última vez?
- Ah, não! Banho de chuveiro, assim? Não, não...
- Não, não?
- Não. Meu banho é de chuva.
- De chuva?
- É. Com a água da chuva. Natural.
- Mas como o sr. tira a sujeira e a gordura do corpo no banho de chuva?

- Esfregando com a mão.
- E o sabonete, Sr. Israel?
- Sabonete? Nunca mais eu uso sabonete! Foi o sabonete que me deixou assim, ó! (Aponta para a parte de cima da cabeça e gira o dedo onde está a careca)
- Sr. Israel, pelo amor de Deus, o banho com sabonete é importante!
- Só com água da chuva e sem sabonete.
- E se for sabão de coco?
- Vou pensar. Sabão de coco é bom.
- E os dentes, Sr. Israel? O que acontec...
- Mandei arrancar tudo!
- Mandou arrancar tudo? Por quê?
- Ah, dava muito trabalho, eu sentia dor...
- E os alimentos, Sr. Israel? O sr. não pensou nisso, na mastigação?
- Não tenho problema nenhum. Vou chupando, amassando. Como tudo bem amassadinho.
- Sr. Israel, não pode...
- 'Tô bem melhor assim.
- Sabia que o seu emagrecimento pode ter sido causado pela falta dos dentes? O sr. nem pensa em providenciar próteses dentárias?
- O quê? Dente pra quê? Pra ficar sorrindo? Ai, ai... Me filma que 'tô sorrindo!

Após as orientações, as condutas e os agendamentos, Sr. Israel explica que nunca lhe faltou dinheiro e me mostrou várias notas de R$ 20. Desenhou o perfil de meu rosto no papel, me presenteou e foi embora, dizendo que iria se encontrar com a namorada (!).