Eis que, em junho, completarei quatro anos de meu ingresso na área da saúde, sendo mais de dois deles, atuando profissionalmente na enfermagem, especialmente, em saúde mental. Passou mais ligeiro do que imaginei e tomei atitudes mais inesperadas do que planejei, como por exemplo, estudar uma faculdade de enfermagem, iniciada neste ano. É interessante voltar à faculdade "depois de grande". Na verdade, eu diria que é muito melhor. Hoje sei que sou mais enfermeira do que jornalista. Mas uma profissão não exclui a outra: continuo gostando de escrever, sentindo necessidade de expressar-me por meio das letras e acho que isso nunca sairá de mim. Mas o balanço que quero fazer é sobre o que vi e ouvi na enfermagem até agora.
Nos locais onde trabalhei, encontrei excelentes profissionais da saúde, mas também, uma enfermagem cansada. Infelizmente, jovens ou veteranos da enfermagem estão fatigados. A razão que leva auxiliares, técnicos ou enfermeiros a concluírem seus cursos são as mais diversas e a maioria não está, de fato, muito preocupada em cuidar do outro. Aliás, esta divisão hierárquica entre os profissionais de enfermagem, ocorrida nos anos 60, mais atrapalhou do que ajudou. Compartilho da mesma opinião de minha professora da disciplina de História do Cuidar: somos todos enfermeiros e pronto.
Pessoas estudam para serem auxiliares e técnicos em enfermagem porque o curso dura um ano (passa rápido), porque tem uma escola a cada três quarteirões, porque se trabalha 06 horas por dia para ganhar uma média líquida inicial de $1.000 (dependendo do local), porque o marido mandou, porque a mãe é enfermeira, porque a vizinhança toda trabalha em hospital, porque o profissional usa roupa branca (e isso dá um certo status), porque basta ter o ensino médio (e isso pode ser resolvido rapidamente com um supletivo). E existem muitos veteranos, com idade avançada, que permaneceram somente com o curso de auxiliar e não se interessaram em dar continuidade aos estudos ou buscar uma reciclagem. Destes, também é possível contar nos dedos os que realmente atuam por vocação. E até mesmo os vocacionados estão exaustos. Raras foram as vezes em que ouvi, "eu gosto de cuidar do outro". Outras pessoas, estudam a faculdade de enfermagem motivadas por uma razão bastante inóspita: por não quererem mais "ficar lavando bunda de paciente". Sim, eu realmente ouvi isso. E não foi só uma vez.
Do pouco que experimentei, com meu olhar novato, porém, entusiasmado, ficou nítido que a enfermagem brasileira está passando por uma nebulosidade que já dura bastante tempo e precisaria (urgente) passar por uma reforma. Há também uma contradição entre o que se fala e o que se faz. Na teoria, tudo é muito correto. Na prática, o que se faz é o jogo do sistema no qual é preciso "entrar no esquema". Esquema este que fiz questão de não participar e, por isso, perdi meu emprego.
Algumas pessoas estão ingressando na enfermagem pelas motivações erradas. Não dá para entrar nesta área sem gostar de gente. Mas é isto que tenho visto e será com isto que vou ter de conviver, até encontrar o meu real lugar no mercado de trabalho. Você pode até não gostar de determinados setores, como geriatria, UTI, psiquiatria, pronto-socorro. Pode até não gostar de fazer alguns procedimentos, como punção, curativo, banho, etc. Mesmo assim, em todas as especialidades e em qualquer atendimento, um profissional atuante em enfermagem, vai ter de enfrentar e assumir o paciente/cliente: seja conversando ou só fazendo companhia, seja só o ouvindo ou dando alguma orientação, seja dando banho nele ou não, esteja você para se aposentar ou não, tenha chegado agora no mercado de trabalho ou não.
Algumas falas de alguns profissionais da enfermagem evidenciam o descompromisso: "este não é meu andar", "este não é meu paciente", "isto não é comigo", "quem mandou você vir falar comigo?", "não sou eu quem vê isso", "já estou de saída". São respostas resvaladiças em que o profissional inconsequente não quer se responsabilizar por nada. Esta atitude hostil é contagiosa na equipe e atinge não só pacientes/clientes, mas também os novatos entusiasmados, como eu.
No meu último emprego sofri bullying. Sim, é risível. Mas é a pura verdade. Verdade também que eu, com minha franca inexperiência e minha ingênua dedicação, acabei trocando os pés pelas mãos e não soube "ser política" nem ter jogo de cintura. Mas essa minha "ingenuidade crônica" (expressão que uma amiga usou sobre mim, certa vez) foi - definitivamente - embora, depois do que vivenciei. Existem características que permeiam meu perfil profissional, independentemente da área em que atuo: possuo excelente nível de diálogo, inteligência emocional desenvolvida, meu desempenho é sempre reconhecido pela competência, dedicação e organização, tenho uma personalidade precavida e prevencionista. Coleto informações, pesquiso o antes e o agora, me interesso, busco um sentido nas coisas que facilite a compreensão do momento presente e me dê os passos para prevenir futuros sofrimentos. Contribuo para melhorias, opino sobre o que não deu certo e ofereço novas ideias. Sobretudo, se for para fazer algo mal feito, nem começo. E mais, no caso da enfermagem principalmente, o bem do paciente/cliente vem antes dos meus interesses. Sou daquelas que para o que está fazendo para dar atenção e não fico satisfeita enquanto a pessoa não ir embora dizendo "obrigado(a)".
Como acolher uma profissional com este nível de comprometimento, em um serviço contaminado por velhos hábitos adquiridos, atrelado ao atendimento de balcão, partilhado por uma equipe mais interessada em dar gargalhadas na copa? Não dá. "Esta moça vai dar problema aqui", "ela vai atrapalhar", "o pior é que os pacientes estão gostando dela", "quem ela pensa que é?". Sou a ameaça. Sou o perigo que atingirá tudo que ali está instalado e "indo muito bem" do jeito que está. Trabalhar direito, neste caso, significa fazer a incompetência do outro aparecer. Afora isso, os colegas mais preparados e mais afetuosos (mas não menos ardilosos!), tentam me consolar dizendo ser tudo fruto de inveja. E há aqueles que também me admiram verdadeiramente mas ficam apreensivos com o envolvimento ao me darem algum apoio. A vida corporativa não é fácil, mas julguei que, na enfermagem, todos tinham uma meta superior em comum. Mas constatei que não é exatamente assim que funciona e que pouco poderei fazer para transformar esta gigantesca realidade.
Desde quando comecei a estudar o curso de auxiliar de enfermagem, ouço falar na "desunião da classe". Eu, que estava iniciando na área, não queria acreditar nisso de maneira nenhuma. "Desunida por quê?", eu pensava. Não estamos todos com um mesmo objetivo final e que é a maior virtude de nosso ofício: cuidar bem e direito do cliente/paciente?. Não estamos todos estudando os mesmos fundamentos, as mesmas bases, os mesmos conceitos, os mesmos procedimentos para fazermos tudo todos juntos na pessoa em tratamento? De onde vem esta desunião? Por quê aparece esta desunião? E acho que encontrei duas respostas: vaidade e medo.
Mas agora, com licença que eu vou à luta. Atrás de uma outra realidade, mais tangível: batalhar um novo emprego.
Como acolher uma profissional com este nível de comprometimento, em um serviço contaminado por velhos hábitos adquiridos, atrelado ao atendimento de balcão, partilhado por uma equipe mais interessada em dar gargalhadas na copa? Não dá. "Esta moça vai dar problema aqui", "ela vai atrapalhar", "o pior é que os pacientes estão gostando dela", "quem ela pensa que é?". Sou a ameaça. Sou o perigo que atingirá tudo que ali está instalado e "indo muito bem" do jeito que está. Trabalhar direito, neste caso, significa fazer a incompetência do outro aparecer. Afora isso, os colegas mais preparados e mais afetuosos (mas não menos ardilosos!), tentam me consolar dizendo ser tudo fruto de inveja. E há aqueles que também me admiram verdadeiramente mas ficam apreensivos com o envolvimento ao me darem algum apoio. A vida corporativa não é fácil, mas julguei que, na enfermagem, todos tinham uma meta superior em comum. Mas constatei que não é exatamente assim que funciona e que pouco poderei fazer para transformar esta gigantesca realidade.
Desde quando comecei a estudar o curso de auxiliar de enfermagem, ouço falar na "desunião da classe". Eu, que estava iniciando na área, não queria acreditar nisso de maneira nenhuma. "Desunida por quê?", eu pensava. Não estamos todos com um mesmo objetivo final e que é a maior virtude de nosso ofício: cuidar bem e direito do cliente/paciente?. Não estamos todos estudando os mesmos fundamentos, as mesmas bases, os mesmos conceitos, os mesmos procedimentos para fazermos tudo todos juntos na pessoa em tratamento? De onde vem esta desunião? Por quê aparece esta desunião? E acho que encontrei duas respostas: vaidade e medo.
Mas agora, com licença que eu vou à luta. Atrás de uma outra realidade, mais tangível: batalhar um novo emprego.